Um hábito muito comum entre os idosos é a repetição da mesma história a medida que os anos passam, embora seja contada para aqueles parentes que já conhecem os detalhes de cor e salteado. Há a interpretação de que esse ato tem relação com o esquecimento, porém nem sempre é sinônimo de algum problema relacionado à memória.
Uma série de pesquisas tem se voltado para o estudo do papel das memórias que cada um tem ao lado do processo de envelhecimento. O hábito de voltar ao passado através do relato de histórias pode ser um processo que corre naturalmente.
E nisso ocorre a reorganização das experiências ao mesmo tempo em que o idoso atribui às memórias algum significado. Ocorre igualmente a construção de forma coerente de uma narrativa da vida daquela mesma pessoa. Um dos pioneiros nesse estudo foi o psiquiatra americano Robert Butler.
Foi em 1963 que o profissional criou a chamada "revisão de vida" apontando que o processo de um idoso de relembrar fatos da própria existência teria chance de ser algo natural e espontâneo. Ao invés de ser classificado de imediato como algo patológico
Para o profissional, quando se recordam experiências já vividas há a chance de fazer uma análise da própria história, mas agora de um modo diferente. Analisar as decisões, lembrar os conflitos, vitórias e perdas, e até mesmo dar perdão a si mesmo por atitudes tomadas fazendo uma análise levando em conta o momento atual.
Após algumas décadas, outros estudos seguem se virando para o mesmo tema: por que alguns fatos da vida têm mais importância sobre outros quando se chega à terceira idade. Mary Ann McColl, de Terapia Ocupacional da Queen's University, no Canadá, fez uma análise com filhos e filhas responsáveis pelos cuidados dos pais, com idades variando dos 78 até os 93 anos.
De acordo com estudos no "Scandinavian Journal of Caring Sciences", vários idosos tinham como hábito repetir de forma constante algumas experiências de vida. Há um padrão de concentração nessas histórias em assuntos ligados à passagens de muita importância na vida deles.
Temos aí desde a migração a educação, passando por momentos felizes quando jovens, trabalho pesado e família. As perdas e sentimentos como amizade e lealdade também apareciam, bem como a importância de tomarem atitudes que julgavam ser a certa.
Nesses estudos, um exemplo utilizado foi o do pai que repetia para o filho quando precisou se mudar com a família. "Meu irmão foi diagnosticado com febre reumática e o médico disse que seria melhor nos mudarmos para um clima mais quente. Então meu pai largou o emprego público, vendeu nossa casa e nos mudamos para a Califórnia", relatou, emocionado, sobre a delicada decisão em prol da saúde do irmão.
Um segundo idoso repetia aos filhos que cuidavam dele o que aconteceu com os próprios pais quando não era nascido após a Segunda Guerra. "Eles passaram por tempos muito difíceis; mal tinham um quarto e um banheiro compartilhado, então meu pai ficava de guarda na porta enquanto minha mãe tomava banho. Eles começaram com muito pouco e, com sacrifício, conquistaram muito", falou a respeito da "não vivência".
Um fato curioso levantado pelos estudiosos é que nem sempre a história contada se repete da mesma forma. Alguns detalhes podem ser colocados, a ênfase passar de uma parte para a outra, ou até levar a uma adaptação conforme o ouvinte muda.
Narrar uma lembrança para outra pessoa com mais idade e que passou por situações parecidas é uma coisa e narrar para um filho, neto ou criança de outra geração, algo diferente. Daí vem a explicação porque alguns fatos que à primeira vista são comuns mantém uma importância mesmo após anos e anos.